Não deixem de ler o belo texto de Fernando de Barros e Silva publicado hoje na Folha de S. Paulo. Tudo a ver com as aulas. Principalmente daquele certo professor (rs)
Teatro dos vampiros
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Perto do fim de "Budapeste", José Costa (ou Zosze Kósta), o narrador do romance de Chico Buarque, descreve a sensação de estar dentro de uma ficção em seus passeios pela orla do Rio:
"As pessoas que eu topava (...) não me pareciam afeitas ao ambiente. Às vezes eu as via como figurantes de um filme que caminhassem para lá e para cá, ou pedalassem na ciclovia a mando do diretor. E as patinadoras seriam profissionais, ganhariam cachês os moleques de rua, ao volante dos carros estariam dublês, fazendo barbaridades na avenida."
Embora distante, essa passagem de mestre veio com força à memória na última sexta, diante da imagem da multidão aglomerada e disposta a linchar o casal suspeito pelo assassinato de Isabella.
Aqueles tipos pareciam figurantes, coadjuvantes, dublês involuntários num filme B de horror. Um "popular" se exibe fantasiado de Bin Laden; outro vem de Cuiabá, 12 horas na estrada; um terceiro surge com um bolo de aniversário, devorado em segundos pelos "curiosos".
A novidade, porém, não está na atuação desses zumbis sociais; o que agora espanta não é apenas a fúria carnavalesca deste lúmpen da sociedade do espetáculo.
Quando o programa da Record coloca, no meio da tarde, uma cama no palco para reproduzir, no estúdio, o quartinho da menina, a apelação abjeta desse teatro parajornalístico é muito evidente.
E quando a Rede Globo decide transmitir ao vivo, durante três horas, sem intervalos, as imagens do casal acossado no dia dos depoimentos -o que devemos pensar?
Não excluo, evidentemente, a mídia impressa -nem a Folha- dos comentários. Mas é a TV, como se sabe, quem chega às massas, ainda mais neste país. A morte de Isabella já se tornou um capítulo de uma guerra desembestada por audiência. E o jornalismo dito "sério" está a reboque dessa escalada bárbara.
Ou, quem sabe, William Bonner seja apenas um ator da novela das oito representando um locutor que nos narra uma tragédia grega...
Muito bom texto PC. Coloquei no meu blogue. Gostei também da entrevista com o novo ombudsman da Folha.
ResponderExcluirAbç.
Pois é. E tem gente que não gosta de ler! Os jornais ainda publicam coisas interessantes. Isso sem falar em livros. Tem gente que não sabe o que está perdendo. E olha que ainda me sobra tempo para falar de futebol e pra navegar na Internet!
ResponderExcluirA nova revisora do JL adorou o seu texto. Não mudou uma vírgula. Não conte pra ninguém.
Pode deixar, não conto rs Li o e-mail sobre a coluna também. Entrei durante o dia no Correio do Brasil e percebi que tinha adiado. Agora vou recortar jornal pra guardar rs
ResponderExcluirAbç.