quarta-feira, 23 de maio de 2012

Formigas acusadas de fumar haxixe na Índia


Meu camarada Maurício Menezes vai adorar ler isso. Vale também o comentário: "Hilário também é o comentário: "E como as formigas carregaram 24 quilos de haxixe sem ninguém perceber?"."

Pesquei no face.

domingo, 20 de maio de 2012

Diário Carioca, um pequeno grande jornal, Ferreira Gullar, na Folha

Deu hoje na Folha de S. Paulo. Estou lendo o livro da Cecília. Ela esteve com meus alunos de Técnica de Reportagem à noite e vai estar na próxima terça com a turma da manhã. Recomendo o livro e a leitura do texto abaixo.


Um pequeno grande jornal
O 'Diário Carioca' introduziu no jornalismo brasileiro a técnica redacional norte-americana do lide e sublide

O "Diário Carioca" (1928-1965) nunca esteve entre os grandes jornais brasileiros mas, ainda assim, marcou época e contribuiu para a modernização de nossa imprensa. É o que está evidente no livro que Cecília Costa acaba de publicar e cujo título diz exatamente isso.

Conforme nos conta, foi por acaso que soube desse jornal, de que mal ouvira falar, já que ninguém o lia em sua casa. Foi atrás, pesquisou, ouviu jornalistas que nele haviam trabalhado e nos deu um livro feito com indiscutível empenho, rico de informações e pleno de lucidez.

O assunto também me diz respeito, muito embora o "DC" nada me deva. Muito pelo contrário, fui eu que muito aprendi no pouco tempo em que ali trabalhei. Lembro esse tempo com muito prazer e saudade, uma vez que nunca pertenci a uma Redação de gente tão bem-humorada quanto aquela. Esse bom humor se refletia nos textos, nos títulos e às vezes na escolha dos assuntos noticiados. O principal responsável por isso era Luiz Paulistano.

Já me referi, aqui mesmo, noutras crônicas, a esse ambiente de camaradagem que nos contaminava a todos. Mas o "DC" não se limitou a isso: implantou no jornalismo brasileiro a técnica redacional norte-americana do lide e do sublide, que veio substituir, em nosso jornalismo, o velho "nariz de cera".

A nova técnica introduzia o leitor de imediato no fato que estava sendo noticiado, já que, em dois parágrafos de quatro linhas cada, saberia o fato que se queria contar, quem era o autor da ação, onde e quando ocorrera e por quê, se fosse o caso.

Mas o livro de Cecília Costa não se limita a nos contar a história do "Diário Carioca". Vai adiante ao nos informar do desdobramento que aquela experiência jornalística conheceu, quando alguns daqueles redatores transferiram-se para o "Jornal do Brasil", em 1958, no momento em que se iniciou a renovação do velho jornal, então transformado num veículo de anúncios classificados. Nem Redação tinha mais, e as notícias eram transcrições do que publicava a agência oficial do governo federal.

A renovação do "Jornal do Brasil" começou, de fato, com o suplemento literário (o "SDJB"), criado por Reynaldo Jardim no ano de 1956. O êxito desse suplemento estimulou a condessa Pereira Carneiro, sua proprietária, a renovar o próprio jornal. Chamou Odylo Costa Filho para fazê-lo.

O acaso, como se sabe, é um fator decisivo na existência dos fatos e das pessoas. E assim foi que, por acaso, fui parar na Redação do "JB", por indicação de Carlos Castelo Branco. É que, àquela altura, já o "DC" atrasava pagamento dos salários, e eu necessitava daquela grana para as despesas da família.

Assim foi que, por acaso, me tornei chefe do copidesque do "JB". Para compô-lo, sugeri a Odylo a contratação de dois redatores: Jânio de Freitas e José Ramos Tinhorão, ambos ex-colegas meus no "DC". A vinda de Jânio -que era meu amigo desde quando trabalhamos na revista "Manchete"- foi decisiva.
Com a colaboração de Amílcar de Castro, começou uma revolução gráfica no "JB". Já falei aqui, mas acho importante repetir: naquela época, as primeiras páginas dos jornais eram ocupadas por matérias que continuavam nas páginas de dentro, quaisquer páginas.

Jânio mudou isso, ocupando a primeira página com resumos das notícias principais, que estariam completas numas mesmas páginas, conforme o assunto. Isso obrigou a escrever as matérias em tamanho definido. Assim nasceu o papel diagramado: cada redator tinha que ater-se a um número exato de linhas.

O jornal ganhou em organização e em clareza. Pode ser que exagere. A verdade, porém, é que os demais jornais pouco a pouco absorveram essas inovações surgidas no "Jornal do Brasil".

Cabe ressaltar que uma parte importante do livro de Cecília são depoimentos que nos mostram, sem mistificação, o que eram os jornais daquela época.

Operação boas maneiras: eu apoio

Deu hoje na Folha. E essa professora não conhece alguns alunos que acham que Laboratório de Internet de faculdade não é lanhouse. E que quando um professor está dando aula num laboratório desses o aluno deve dar bom dia, boa tarde ou boa noite e perguntar se pode usar o computador se quiser consultar algum trabalho.


CRISTINA GRILLO
Boas maneiras

RIO DE JANEIRO - Li outro dia uma reportagem sobre uma professora que vem fazendo sucesso nas altas rodas cariocas dando aulas de boas maneiras para crianças.

No cursinho, ela ensina aos pequenos noções básicas de boa educação. Coisas como não falar alto, não interromper a conversa alheia, dizer "obrigada" e "por favor".

Seria uma boa ideia ampliar a prática para que atingisse boa parte da população da cidade, principalmente aquela ligada ao setor de serviços.

Uma cartilha básica poderia ensinar aos motoristas de táxi, por exemplo, que nem todos os passageiros têm interesse em ouvir, em alto volume no rádio do carro, o último sucesso de um grupo pagodeiro ou um debate em uma rádio popular.

Outro item deveria explicar que, quando o passageiro pede, educadamente, que se diminua o volume do rádio, a resposta correta não é "não posso porque senão não escuto".

Garçons, atendentes e vendedores poderiam receber da tal professora a seguinte lição: não é de bom tom continuar conversando animadamente com o colega de trabalho enquanto o cliente mendiga por um segundo de atenção.

Nem pega bem olhar de cara feia quando ele, timidamente, interrompe o bate-papo com um "por favor, gostaria de..."

A cartilha poderia incluir regrinhas básicas para o cidadão em geral. Coisas simples, como não fingir que está dormindo no banco do metrô quando um idoso entra no vagão, não aproveitar a breve distração do próximo para tentar furar a fila no cinema, não acelerar o carro ameaçadoramente enquanto o pedestre atravessa a rua na faixa...

A lista de pequenas incivilidades de nosso dia a dia é longa, mas não é intransponível. Se as crianças de dez anos podem aprender a ter boas maneiras, com um pouquinho de boa vontade, nós também conseguiremos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

PC Guimarães fala de blogs no Portal dos Jornalistas



Deu no "Portal dos Jornalistas". A entrevista foi feita pela repórter Mariana Ribeiro. 

16.05.12 - Blogueiro profissional

Paulo Cezar Guimarães, ou simplesmente PC, é o que se pode chamar de blogueiro profissional. Com cinco blogs na rede, cada um deles sobre um tema específico, PC diz que apesar de não ser um nerd sempre foi antenado em lançamentos tecnológicos: “Quando lançaram o DVD, fui logo comprar. A mesma coisa com o celular. Gosto de descobrir quais recursos aquela nova tecnologia pode me oferecer”.
Com blogs, em especial, a história foi um pouco diferente, mas não menos curiosa. “Como professor universitário [da Facha, no Rio de Janeiro], levei meus alunos para acompanhar o fechamento de O Globo, com meu amigoJorge Antônio Barros. Quando terminou a visita, já de madrugada, eu e ele fomos jantar. No caminho, fomos abordados com certa agressividade por policiais em uma blitz. Eu tenho cabelo e barba branca, o Jorge é evangélico e nós nos identificamos. Não havia necessidade de tudo aquilo”, conta. Após o episódio, Jorge comentou que publicaria o acontecido em seu blog. Curioso, PC diz que logo se interessou pela explicação do amigo sobre o que era o tal blog. “Logo depois, o Blog do PC Guima estava na rede”, lembra.
Os demais vieram em consequência do primeiro. “Após um período publicando assuntos variados no Blog do PC Guima, notei que eram muitos os comentários sobre esportes. Então resolvi focar sobre o assunto no blog, mas não queria deixar de lado o conteúdo que postava para meus alunos da faculdade”. Foi assim que no ano seguinte – 2007 – PC estreou seu segundo “filho virtual”, o Blog do Professor PC Guima. Um ano mais tarde, este se desmembrou e deu origem a outro blog, agora específico para crônicas, o Crônicas do PC Guima. O espaço mais recente de PC é o Livros de Jornalismo, em que dá dicas de obras importantes para estudantes, professores e profissionais da área. 
Além de seus blogs independentes, PC escreve sobre o Botafogo para o portal do JB. Também utiliza a ferramenta com seus alunos da Facha. “Dependendo da disciplina que estou ministrando, escolho o enfoque do blog. Já fizemos blogssobre os 100 anos de Noel Rosa, Beatles e Woodstock. Agora estamos fazendo um explorando a revista Realidade”, conta.
Sobre a relação internet e Jornalismo, ele comenta: “A internet valorizou a nossa profissão de todas as maneiras, mas também trouxe muitos aventureiros. Por exemplo, um blogueiro que escreve sobre o Flamengo no JB é advogado – muito competente, por sinal. Quando ele se intitula jornalista, periodista ou cronista, eu rebato dizendo que jornalista sou eu. Ele é um advogado blogueiro”.
PC atribui o sucesso de suas publicações justamente ao olhar diferenciado do jornalista. “O leitor entra no blog pra ver uma brincadeira, comentários sobre coisas que saíram na grande imprensa (que, inclusive, eu replico no meu espaço). Porém, já tive chamada de posts publicados no site do JB”, afirma. E completa, assertivo: “Li muitos livros sobre blogs, inclusive estrangeiros. Manter o blog atualizado é o segredo, senão você perde o leitor”.
“O blog que começou como diversão, tornou-se um meio de trabalho. A única coisa que ainda não consegui com eles foi ganhar dinheiro”, brinca o jornalista, que hoje também faz blogs sob encomenda.
Por: Mariana Ribeiro

quarta-feira, 16 de maio de 2012

"O papel das novas mídias no fortalecimento da liberdade de imprensa", palestra no Globo

Tirando a questão política que envolve a Grande e a Pequena Mídia, vale a pena dar uma espiadinha na matéria abaixo publicada hoje no Globo. Reflitam politicamente e questionem o conteúdo do que o Paolo Mieli falou.


'Em busca da verdade, toda fonte é legítima', afirma Paolo Mieli
Por O Globo (internacio@oglobo.com.br) | Agência O Globo – 18 horas atrás

RIO - Ninguém deve ser evitado ou descartado como fonte de informação. Esta é a resposta do jornalista italiano Paolo Mieli, de 63 anos, especialista em estudos sobre liberdade de imprensa, ao recente debate no Brasil sobre a legitimidade do contato entre repórteres e fontes. A polêmica ganhou fôlego depois que gravações da Polícia Federal mostraram telefonemas entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e um repórter da revista "Veja". Convidado pelo GLOBO para debater "O papel das novas mídias no fortalecimento da liberdade de imprensa", Mieli é categórico ao defender que, na busca pela verdade, não cabe ao jornalista discriminar fontes e que esse contato é legítimo, desde que a imprensa não passe a servir aos interesses destes contatos.

Numa palestra concedida em italiano, com tradução simultânea e mediação dos colunistas Ancelmo Gois e Flávia Oliveira, Mieli - que já dirigiu o "Corriere della Sera" e o "La Stampa" e atualmente é presidente da editora RCS Libri SpA - tratou do impacto da chegada de novas mídias em eventos como os levantes populares que derrubaram ditadores na Primavera Árabe. O jornalista italiano lembra que, apesar de seu perfil imbatível na rápida disseminação de informações, como a convocação para protestos por meio das redes sociais, estas mídias ainda não se mostraram capazes de refletir sobre esses eventos ou de apontar direções para países que ainda tentam encontrar seu caminho para a democracia.

No Brasil a convite do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro em colaboração com a Associação Cultural Anita Garibaldi, Mieli ressalta que o mar de informações disponíveis para o leitor não exime a imprensa tradicional de seu papel de hierarquizar as notícias e simplificar mensagens. Ao contrário, o excesso de informação disponível só reforça a necessidade de selecionar os fatos que, realmente, interferem na vida do leitor.

Ainda assim, Mieli reconhece que a mudança de hábito do consumidor é irrevogável. Mas, se na Europa o público jovem troca jornais pela busca de conteúdo em tablets, no Brasil ele acredita que a mídia impressa ainda conta com a ajuda do aumento do poder de compra da população, capaz de impulsionar o número de leitores. Com um futuro ainda incerto, para Mieli, o jornal impresso se tornará, no futuro, um símbolo de status, a partir do qual se adquire a visão definitiva de um determinado evento.

A RELAÇÃO COM AS FONTES

"Vou dizer de forma clara: qualquer fonte é legítima. Um jornalista não deve se impor obstáculos na busca por informação, como discriminar se alguém é um mafioso, criminoso ou nazista. Obviamente, isso é válido desde que receba da fonte uma notícia, algo que ontem não se conhecia e hoje você passa a conhecer. É óbvio, também, que a fonte dirá o que convém a ela. Nosso trabalho é encontrar algo a mais. Uma passagem para a verdade se consegue com pequenos detalhes, que, em alguns casos, podem ser obtidos com uma fonte considerada condenável. O problema é quando o jornalista se coloca a serviço de um contato criminoso. O ofício trata de construir a verdade. Ninguém deve ser evitado como fonte. Se você está procurando fatos, deve falar com o mafioso mesmo que a lei o obrigue a denunciá-lo. Nesse caso, você deve violar a lei e pagar as consequências, ainda que isso signifique ser preso."

IMPRENSA INDEPENDENTE

"A partir da década de 70, se consolida um modelo de jornalismo que atinge os interesses constituídos na política e na economia. É nessa fase que ocorre a explosão de casos de corrupção, coberturas como a luta pela Presidência dos EUA, os escândalos sexuais como o de Bill Clinton e Monica Lewinsky, e as relações de Silvio Berlusconi e suas moças.

Os poderes políticos reagem pedindo restrições das leis de liberdade de imprensa. Pedem a imposição de limites, mas com a disseminação da internet, isso faz com que as leis que poderiam limitar a publicação de dados no impresso funcionem como uma barragem para o oceano.
Uma informação livre tem de ser economicamente autossuficiente. Enquanto não houver meios de pagar os jornalistas, não podemos enfrentar sozinhos os gigantes da economia; enquanto não houver forma de enriquecimento na internet, ela pode funcionar como uma armadilha. Temos as ferramentas, a força, as condições de batalhar contra a censura. Mas há o risco de nos condicionarmos pela falta de meios."

JORNALISMO TRADICIONAL

"Os aspectos mais importante no jornalismo tradicional são a hierarquização das notícias e a simplificação da mensagem - a ideia de que ontem as coisas realmente importantes foram tais e tais. Caso contrário, corre-se o risco de passar uma enxurrada de dados, como se houvesse um ouvinte colado ao rádio o dia inteiro. A internet é um meio de informações fragmentadas. Na Europa, muitos ainda assistem ao jornal da TV. É de se estranhar, afinal quem tem gratuitamente informações no computador não precisaria, em tese, assistir. Mas você quer ser um cidadão do seu mundo. E isso se traduz com a definição das coisas mais importantes na avaliação de uma comunidade paga para fazer essa seleção. Se você tentar não ler ou assistir ao jornal, verá que após uma semana não estará entendendo mais nada. Sem a hierarquização da notícia, você se perde. E com um mar de dados é muito fácil esconder informações."

O PAPEL DAS NOVAS MÍDIAS

"As novas mídias têm uma função formidável no que diz respeito à difusão, à velocidade da notícia. Hoje é possível saber em tempo real o que nos interessa nos campos econômico e até revolucionário, no caso dos países da Primavera Árabe. Mas as novas mídias não têm a forte personalidade que há no jornal impresso e na TV. Conseguem fazer explodir uma questão, mas não regem o comportamento de longo prazo, de longa duração. No festejo da revolução árabe, as novas mídias foram insignificantes ou nulas quando se fala em sugerir a construção do que viria depois. No Egito, elas são importantes, mas propõem sempre o mesmo modelo: convocar as pessoas à Praça Tahrir. São muito eficazes pela rapidez, pela técnica peculiar vista principalmente no mundo do Twitter. Mas são nulas a partir do momento em que você precisa parar para refletir."

REPERCUSSÃO GLOBALIZADA

"A sugestão que dou para os jornais brasileiros é buscar a repercussão internacional. Silvio Berlusconi ainda é um homem poderoso. Mas na batalha pela verdade, ele teve de trabalhar muito porque havia uma opinião pública internacional que contava o que na Itália não aparecia na imprensa. Um artigo sobre um tema local no "New York Times", no "GLOBO", no "Le Monde", no "Corriere della Sera" tem um impacto importante."

MUDANÇA DE HÁBITOS

"No início, pensávamos em atrasar o casamento com a internet, mas percebemos que não funcionaria. O que acontece na Europa é irreversível. Os garotos pulam do papel para a internet. Os jovens - e não digo os de 15 anos, mas os de 25 ou 30 anos - ligam o tablet para ver as notícias do dia. Vocês têm uma oportunidade a mais com a grande quantidade de pessoas que passam a contar com meios para comprar jornal todos os dias. Vocês (os diários brasileiros) terão um tempo a mais antes de enfrentar o problema que vivemos."

O FUTURO DO IMPRESSO

"Penso que a situação é difícil para o jornalismo impresso. Durante séculos, o teatro foi a maneira de se expressar, da Grécia antiga até o fim do século XIX. Depois vieram o cinema e a TV. O teatro não morreu, mas não é o mesmo do passado. Ainda hoje, muitos diretores e atores encontram sua consagração passando pelo teatro. Na imprensa pode acontecer algo similar. O papel impresso será algo mais elitista, com menos cópias, mas se um autor quiser contar a fundo a realidade, ele passará pelo impresso. Será onde se adquire a visão definitiva de um evento.

No futuro, as elites vão ler jornal. Uma parte da população encontrará seu status nisso. A leitura do jornal, quando alguém se senta no bar e com tempo curte a informação, é um ritual. Abrir um jornal significa dedicar um tempo à informação. É como os livros que hoje podem ser lidos em tablets. Mas tenho a convicção de que os livros no formato tradicional ainda deverão durar uns 250 anos."

Abaixo a reprodução da página impressa.

Somente para ilustrar o post.
Não é preciso consultar o oftal.
Não dá par ler mesmo

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Essa é pra botar no currículo! E no Blog do Professor PC também

Caraca! Só hoje fui saber. Meu querido amigo, ex-aluno e tremendo escritor Marcos Eduardo Neves, autor do livro "Nunca houve um homem como Heleno", me botou no meio das feras homenageadas nos créditos do livro que está fazendo o maior sucesso.

Não mereço tanto. O que seria de mim se não fossem meus amigos e meus queridos alunos e ex-alunos. Tipo de homenagem pra botar no currículo. Valeu, Marcos! Você é o cara.



Quem lê tanta notícia?: mata o véio


Mata-me de rir. Pesquei no facebook.

Cantinho do Mobral: esfoleando jornais e assassinando a gramática


Assim esse jornaleiro mineiro me mata. Direto do face do meu camarada, ex-aluno e professor da FACHA, Frederico Caldas.

domingo, 13 de maio de 2012

Jornal britânico subverte regras de edição

Interessantíssimo este artigo de Álvaro Pereira Júnior, publicado na Folha de sábado. Leia abaixo e depois clique aqui.

O furacão azul da web

Se o "Mail Online" subverte todas as regras de edição, por que tem uma audiência tão espetacular?


"BABÁ PODE pegar 30 anos de cadeia depois de atacar sexualmente uma menina de cinco anos na casa dos pais dela e transmitir tudo AO VIVO, pelo Skype, para pedófilos."

Atenção, o parágrafo acima não é um trecho extraído de um texto maior. É uma manchete! Isso, manchete, aquilo que, em tese, deveria ser direto, sintético, ter verbo no presente e catar o leitor pelo colarinho.

A manchete escabrosa -na forma e no conteúdo- saiu nesta semana no site do "Daily Mail", jornal britânico "caretaço", a voz da classe média conservadora do Reino Unido.

Um diário tão "coxinha" que foi satirizado por Morrissey, dos Smiths, na letra de "The Queen is Dead", uma crítica à monarquia ("Charles, você nunca teve vontade / de aparecer na capa do 'Daily Mail' / vestido com o véu de noiva da sua mãe?").

Mas se o jornal é tão bege, por que deu, na internet, uma manchete barra-pesada como a do início deste texto? E por que o "Mail Online" é assunto desta coluna?

Porque o "Daily Mail" deixou de lado o ranço e a opacidade que tem no papel e se transformou em um fenômeno da internet. É, desde fevereiro passado, o site de jornal mais lido da língua inglesa. Deixou para trás um parâmetro de qualidade jornalística, o site do "New York Times".

A fórmula desse sucesso é totalmente inusitada.

1) Mandou para o quinto dos infernos regras básicas de diagramação e edição. A home page é uma zona, cheia de títulos compridos, quase sempre em azul, e praticamente sem hierarquia de assuntos.
2) O "Mail Online", da internet, não tem quase nada a ver com o "Daily Mail" impresso. É feito por outra equipe, com outro editor-chefe e outra pegada.

Se o "Daily Mail" das bancas fala de política, tem um viés xenófobo e cobre celebridades com certa discrição, o "Mail Online" está pouco se lixando para política e dedica um espaço enorme às fofocas -uma longa coluna, fixa, à direita de quem olha para a home page.

Também capricha nas reportagens policiais e de comportamento, além de muitas notas bizarras. É divertido, leve. Seus textos, tantos deles irresistíveis, são reproduzidos no mundo inteiro, nem sempre com o devido crédito.

Também sabe surpreender: pesquisando para esta coluna, encontrei uma longa reportagem, muito bem escrita e apurada, sobre a herança de Malcolm McLaren, o criador do punk inglês. Poucas horas antes de morrer de um câncer muito raro, McLaren assinou um documento em que deixava seu único filho fora da partilha de bens.

O filho, multimilionário empresário de moda, nem precisaria do dinheiro. Mas McLaren fez questão dessa última crueldade. Aprendi no "Mail Online". Mas desculpe pela digressão. Falávamos do sucesso do "Mail" na web.

O caos da "home" é o que mais chama a atenção. Primeiro, porque ela é imensa. Você vai descendo o cursor, descendo... E não acaba nunca.

Segundo, porque não tem hierarquia, ou, se tem, segue regras indecifráveis. Começa com uma manchete, depois assuntos embaralhados, depois outra manchete, em seguida mais assuntos misturados, aí outra manchete, outro "mélange" de editorias, e assim vai.

É básico no jornalismo: editar é hierarquizar. Diante de uma gama de assuntos e reportagens, e de uma página em branco, cabe ao editor decidir qual o principal assunto, qual foto merece o maior espaço, se essa foto estará ligada ou não à reportagem mais importante, e quais os temas menos relevantes/impactantes a serem publicados em tamanho menor, ou mais abaixo na página.

Isso vale para veículos impressos e on-line (em TV e rádio também, mas com uma lógica um pouco diferente). A home page do "New York Times", por exemplo, é uma aula de clareza e hierarquização, facilitando a vida do leitor.

Mas, se o "Mail Online" subverte tudo isso, por que tem uma audiência tão espetacular? O editor-chefe, Martin Clarke, fiel à tradição dos tabloides ingleses de fazer jornalismo com o fígado, não com o cérebro, disparou à revista "New Yorker": "Nosso site quebra todas as regras dessa tal usabilidade porque somos 'user-friendly' para pessoas normais, não para fanáticos de internet".

Diante de tanta audiência, não há como negar-lhe razão. O "Mail Online" pintou a internet de azul.

Para não prejudicar os leitores, jornalistas não podem errar. Mesmo nas coisas "pequenas"

Deu hoje na coluna da Suzana Singer, ombudsman da Folha.


O diabo mora nos detalhes

Eles não estão nas primeiras páginas nem ocupam muito espaço, mas podem provocar grandes dores de cabeça. São os "pequenos" erros, que atrapalham bastante a vida de quem usa o jornal no dia a dia.

No sábado retrasado, o caderno "Mercado" tentou ajudar o leitor a comparar investimentos, levando em conta as mudanças na poupança. Um quadro simulava diferentes aplicações para R$ 100 mil, considerando a taxa de juros atual e uma possível queda da Selic, além do impacto do Imposto de Renda.

Uma revisão atenta notaria que a nova poupança, considerando a Selic a 9%, não poderia render R$ 500 e a mesma aplicação, a 8,5%, R$ 516. Com uma calculadora, o planejador financeiro pessoal Alvaro Dias, 42, encontrou outros 13 erros. A tabela teve que ser publicada de novo na terça-feira passada.

Só contando nos dedos, o jornalista aposentado Vicente Pettinati Netto, 77, descobriu que faltava um número no resultado da Lotofácil no mês passado. "Não raro as correções são de coisas sem importância, e erros mais sérios passam em branco. Imagine se alguém deixar de receber um prêmio por culpa do jornal?", criticou.

O blogueiro Sérgio Beni Luftglas, 45, não perdeu uma fortuna, mas uns tantos reais -e tempo- por causa da Folha. No domingo, 15 de abril, saiu de casa depois de consultar a "revista sãopaulo" para assistir a "Guerra é Guerra", no Shopping Pátio Higienópolis (região central de SP). Parou no estacionamento, tomou um café e... descobriu que o filme não estava mais em cartaz. "Quando voltei para casa, fui olhar no guia do 'Estadão' e lá estava certo", reclamou Luftglas.

Os erros em serviços parecem tão insignificantes que muitos relutam em apontá-los. O funcionário público aposentado Camilo Marcantonio, 71, de Monte Alto (interior de SP), ficou na dúvida sobre escrever para o ombudsman, porque, "diante de tantos erros que a Folha comete, o que aponto é nada".

Marcantonio tinha se esquecido de reajustar o salário de sua empregada doméstica. Na seção Faça suas Contas, de "Mercado", viu que o salário mínimo em São Paulo era de R$ 690 em março. "Não tive dúvida.

Pedi desculpas pela falha e paguei-lhe a diferença", conta. No dia seguinte, voltou a "Mercado" e encontrou um novo valor (R$ 622). Mais uns dias e... o salário mínimo tinha voltado a R$ 690. Graças a ele, descobriu-se que a tabela já tinha saído com erro quatro vezes. "Se corrigiu, já está bom", conforma-se.

O jornal é que não pode se acomodar. Se não há checadores, poderia ser criado algum tipo de conferência por amostragem, voltada para a parte de serviço (indicadores econômicos, roteiros de lazer, quadro de fusos horários etc).

Aos leitores, peço que não desistam de alertar a Redação: pode ser no ombudsman@uol.com.br ou clicando no ícone "comunicar erro", que aparece no alto de todos os textos daFolha.com.

É obrigatório, na Folha, retificar qualquer incorreção. Não importa se foi manchete ou se estava em letras miúdas perdida no meio de uma tabela. Afinal, o diabo mora nos detalhes.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

É nisso que dá tentar fraudar tese de mestrado!

Deu hoje na Folha.

Parte da ilustração da versão impressa


Acusação faz cientista refazer mestrado
Empresa afirma que imagens usadas em dissertação são fraudulentas; aluno alterou trabalho quatro anos depois
Imagens teriam sido feitas em uma cozinha; para universidade, uso das fotos era apenas ilustrativo no trabalho
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”


Uma acusação de fraude envolvendo uma dissertação de mestrado defendida em 2008 e um artigo científico publicado no ano passado, ambos de pesquisadores da UFPR (Universidade Federal do Paraná), levou a um desfecho inusitado: o mestrado foi alterado quatro anos após a defesa e republicado.
A reportagem da Folha tomou conhecimento do caso pelo Folhaleaks, canal criado pelo jornal para receber informações e documentos.

"Em 30 anos de vida acadêmica, eu nunca tinha visto isso", reconhece o pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UFPR, Sergio Scheer.

Em geral, uma vez que um trabalho de mestrado ou doutorado é aprovado por uma banca de examinadores, o aluno tem, no máximo, algumas semanas para fazer correções finais antes de o trabalho ser "eternizado" na biblioteca da universidade.

Para a UFPR, que concluiu investigação sobre o caso no mês passado, houve apenas uso indevido de imagens. As imagens infravermelhas teriam sido publicadas sem autorização da empresa curitibana Thermotronics.

O dono da empresa, no entanto, afirma que as imagens são fraudulentas, já que servem de base para descrever experimentos que não teriam ocorrido da maneira como afirmam os cientistas.

RATOS NA BERLINDA

O mestrado do médico Angelo Manoel Grande Carstens envolveu a visualização, via infravermelho, do efeito de dois anestésicos, a bupivacaína e a levobupivacaína, nos vasos sanguíneos de ratos.
No ano passado, os resultados dessa mesma pesquisa saíram também na "Revista Brasileira de Anestesiologia".

"É possível conseguir informações fantásticas sobre o metabolismo usando essas imagens de infravermelho", diz o engenheiro Mário Cimbalista Junior, dono da Thermotronics que denunciou a suposta fraude à UFPR.
Segundo Cimbalista Junior, ele tinha sido sócio de um dos orientadores de Carstens, o médico Marcos Leal Brioschi. Ele afirma que costumava ceder as dependências da empresa para experimentos.

"Resolvi procurar na internet referências à Thermotronics em artigos científicos e me deparei com o estudo. Fiquei chocado", conta.

Enquanto o trabalho declara que os experimentos ocorreram num laboratório da UFPR em 2007, Cimbalista Junior diz que foram feitos em 2004, na cozinha de sua empresa.

Os pesquisadores também teriam errado no número de ratos filmados no estudo, no número de roedores mortos no experimento e nas informações sobre os aparelhos utilizados. "Tudo isso compromete os resultados."

INVESTIGAÇÃO

A universidade criou uma comissão para investigar o caso, a qual concluiu que as imagens, nas quais o empresário baseou sua denúncia, foram usadas de forma meramente ilustrativa.

"Faltou dizer isso na dissertação original. A gente sempre diz aos alunos que é preciso deixar clara a fonte de tudo o que se usa num trabalho", afirma o pró-reitor.

Segundo ele, o estudo usou como base outro aparelho, que não fazia o mesmo tipo de imagem. Os resultados, portanto, ainda valeriam.

O editor-chefe da "Revista Brasileira de Anestesiologia", Mário Conceição, afirmou à Folha que a equipe da publicação ficou "preocupada" com as denúncias.

No entanto, diz ele, "os conceitos e resultados apresentados foram de responsabilidade dos autores."
A Folha apurou que Cimbalista Junior está processando Brioschi. Nenhum dos dois quis comentar a ação judicial.

OUTRO LADO
Pesquisador não respondeu a pedido de entrevista
DO EDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE”

Por meio de sua advogada, Eloisa Pontes Tavares, o médico Marcos Leal Brioschi, um dos orientadores da dissertação de mestrado e do artigo colocados sob suspeita, disse que preferia não se pronunciar sobre o conteúdo da denúncia, declarando que "a posição oficial da UFPR reflete a realidade dos fatos".
Para a universidade, o problema dos trabalhos foi apenas no uso não autorizado de imagens infravermelhas.
A reportagem da Folha procurou por telefone e por e-mail o anestesiologista Angelo Manoel Grande Carstens, autor do mestrado, e deixou recado no hospital onde ele trabalha e em sua casa, mas o médico não respondeu as mensagens. (RJL)


domingo, 6 de maio de 2012

História do Jornalismo: Estadão lança acervo na internet

Deu hoje no site do Estadão. Belíssima fonte de pesquisa para estudantes. Recomendo.


06.maio.2012 07:00:04

Estadão lança acervo na internet no dia 23

Da abolição da escravidão à promulgação da Constituição, do voo de Santos Dumont à chegada do homem à Lua, da Proclamação da República à redemocratização, do nascimento do futebol à conquista do pentacampeonato, do conflito de Canudos a duas guerras mundiais, não há assunto relevante que não tenha sido noticiado nas páginas do Estadão ao longo de seus 137 anos de história.
Mais de 2 milhões de páginas publicadas pelo jornal desde a sua fundação, em 4 de janeiro de 1875, estarão na íntegra à disposição para consultas na internet a partir do próximo dia 23. Com alguns cliques no computador, tablet ou celular será possível mergulhar na história do Brasil e do mundo.
Mais do que uma poderosa ferramenta de busca de informações, o Acervo Estadão proporcionará uma experiência inédita em termos de disseminação de conhecimento. Convênios com bibliotecas e instituições de ensino do País garantirão acesso pleno a pesquisadores e estudantes.  Ao entregar esse valioso acervo aos leitores, o Estado reafirma seu compromisso com a disseminação do conhecimento por meio do jornalismo independente e de qualidade.
História. A digitalização dará destaque à censura sofrida pelo Estado em vários períodos, especialmente após a edição do Ato Institucional n.º 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968. As páginas censuradas durante a ditadura militar e nunca publicadas estarão disponíveis tal qual foram planejadas. O leitor poderá ver como o jornal desafiou a censura publicando versos de Camões nos espaços deixados pelas reportagens barradas.
A digitalização dá sequência a um histórico de inovações tecnológicas que sempre marcou a trajetória do Estado. Uma das primeiras foi a contratação da agência de notícias Havas, atual France Presse, pelo jornalista Julio Mesquita, o patriarca da família proprietária da empresa.
O acervo torna possível a consulta dos relatos enviados pelo escritor Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos, ainda nos primeiros anos da República, no interior da Bahia. O trabalho deu origem ao clássico da literatura brasileira Os Sertões.
Um conversor de valores vai auxiliar o internauta a calcular preços de produtos anunciados em diferentes épocas.
Digitalização. Até recentemente, o trabalho dos pesquisadores interessados em consultar jornais antigos exigia tempo e disposição para folhear originais de papel, em volumosas coleções encadernadas guardadas em bibliotecas. Havia ainda a dificuldades de reprodução e organização, barreiras agora superadas com a possibilidade de fazer buscas pela internet nos arquivos digitalizados.
Perfiladas, as páginas do acervo do Estado cobririam 1.440 km, distância entre São Paulo e Vitória da Conquista (BA). Encadernados, os volumes ocupam 230 metros, altura de um prédio de 76 andares.
Siga o Arquivo Estadão: twitter@estadaoarquivo | facebook/arquivoestadao | Instagram

sábado, 5 de maio de 2012

O jornal que mudou a imprensa carioca e brasileira, Diário Carioca

A jornalista e escritora Cecília Costa, minha colega contemporânea de O Globo e ex-editora do caderno "Prosa & Verso", está lançando "Diário Carioca - o jornal que mudou a imprensa carioca". Acompanhei a fase inicial de produção do livro, Cecília fez palestra para meus alunos na época e estou curiosíssimo para ler no papel. Já dei uma espiadinha no pdf. Tenho paixão e curiosidade pelo DC. Afinal revolucionou a imprensa. Não é da minha época. Vou ler todinho e recomendo.

 Capa do livro

Reprodução da capa de uma das edições mais famosas

Para saber mais, clique no meu blog de Livros de Jornalismo.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Internet para os ricos e os demais: Jornalismo de qualidade será pago

Deu hoje na Folha.


MOISÉS NAÍM
Internet para os ricos e os demais
O jornalismo de qualidade será pago, o que nos dividirá ainda mais. É urgente combater isso
Duas das principais tendências atuais são o acesso cada vez maior da população mundial à internet e o acirramento das desigualdades socioeconômicas. No futuro, essas duas tendências vão convergir.
Existirá uma internet para os que possuem mais e outra para os demais. Isto não significa que haverá duas "redes" diferentes, ou que a internet para os internautas com renda mais baixa deixe de oferecer as possibilidades maravilhosas que a rede abriu a todos nós, sem distinções de idade, nível econômico ou nacionalidade. De fato, a popularização da internet vem servindo para contrabalançar, de alguma maneira, a concentração de riqueza, renda e poder em muitos países.
Mas o problema é que aqueles que possuem menos serão mais vitimados por meio da internet que aqueles que têm meios para proteger-se.
Todos nós já fomos vítimas dessa internet "má": vírus, spams, hacking, cracking e perda de privacidade. As transações fraudulentas e o "roubo de identidade" são delitos em ascensão. Em 2012, os prejuízos sofridos em nível mundial chegarão a US$ 114 bilhões.
Desde esse ponto de vista, não é arriscado prever que a experiência com a internet que terá um usuário de baixa renda no Brasil, na Itália ou no Canadá, por exemplo, será muito diferente daquela de um internauta que possua meios para comprar as maiores proteções que o mercado oferece.
O "desnível digital" entre países pobres e ricos vai se reproduzir no interior de cada país: os usuários pobres viverão num mundo de internet mais perigoso que o dos ricos.
Isso acontece porque será necessário gastar valores altos com proteções e barreiras tão sofisticadas quanto os programas muito avançados que envenenam a rede. Se organismos de inteligência, grandes bancos, empresas e instituições de todo tipo são atacados regularmente por cibercriminosos, é natural que os indivíduos sejamos vulneráveis.
John Brennan, o principal assessor da Casa Branca para o antiterrorismo, afirma que, "num dia útil qualquer, empresas em todos os setores da economia são submetidas a uma enxurrada incessante de ciberataques.
São roubados sua propriedade intelectual, os desenhos de novos produtos ou as informações pessoais de seus clientes. Os dados mais delicados sobre sistemas de defesa e armamentos também estão em risco. No ano passado houve mais de 200 ciberataques, alguns bem-sucedidos e outros fracassados, contra os sistemas de controle de nossas redes elétricas, sistemas de transporte, aquedutos e refinarias -cinco vezes mais que em 2010".
Mas a desigualdade na internet não decorre apenas dos criminosos.
Também haverá desníveis entre quem pode pagar por conteúdos jornalísticos da mais alta qualidade e quem acede apenas à informação gratuita que circula pela rede. Desta última -informação gratuita- continuará a haver cada vez mais.
De conteúdos que ajudam a entender objetivamente o que significa essa informação, haverá muito menos. O jornalismo de qualidade será pago, e isso nos dividirá. É urgente combater essas tendências.
@moisesnaim
Tradução de CLARA ALLAIN

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Professor PC Guimarães e o blog Livros de Jornalismo


Pessoal: criei um blog só com indicações sobre Livros de Jornalismo. A maioria (mais de 90 %) foi lido por mim e recomendo. Ainda está em fase inicial. Tem muita dica pra postar ainda. 

Para conferir, é só clicar aqui.

terça-feira, 1 de maio de 2012

domingo, 29 de abril de 2012

Os especialistas e a obrigação do repórter de questionar sempre

Imperdível. Deu hoje na coluna da Suzana Singer, ombudsman da Folha. Aula de Jornalismo.


Os especialistas
Reportagens baseadas apenas em quem trabalha na área ficam acríticas e podem induzir a erro

Uma parte considerável do noticiário é alimentada diariamente por "especialistas": de juristas a baristas, eles são ouvidos para comentar os últimos fatos, dar dicas ou fornecer dados de pesquisas.

Nada contra, desde que se mantenha um certo distanciamento crítico. Três exemplos recentes da Folha mostram que isso nem sempre tem acontecido.

Na última sexta-feira-13, o título principal de "Saúde" afirmava que "metade dos casos de dor de cabeça está ligada à mandíbula". A estimativa era de um dentista que criou há meses uma sociedade voltada justamente para orientar sobre dores de ATM (articulação temporomandibular). Foram entrevistados dois outros dentistas, que corroboravam a tese, mas nenhum médico.

O texto não esclarecia, mas a conclusão de que 50% das dores de cabeça vêm da mandíbula foi tirada de "observação clínica" -leia-se "nada de pesquisa científica".

"É uma inverdade, trabalhos sérios mostram que as cefaleias mais frequentes são a enxaqueca e a do tipo tensional, que correspondem a mais de 80% dos casos", rebate Marcelo Ciciarelli, 48, presidente da Sociedade Brasileira de Cefaleia.

Para Ciciarelli, reportagens como essa confundem o leitor, "levando-o a procurar tratamentos inadequados, a usar aparelhos e placas que, além do alto custo, na maioria das vezes pouco auxiliam".

O editor de "Saúde" admite que um neurologista deveria ter sido ouvido, mas não acha que a reportagem "pecou por falta de diversidade". "Parece improvável que todos os dentistas, mesmo os que nem lidam diretamente com ATM, conspirem para sobrevalorizar o lado odontológico do problema, e vários deles foram ouvidos", diz.

Só que dentistas também reclamaram da reportagem, cujo problema maior nem foi ter deixado de ouvir um médico, mas ter "comprado" um número sem questioná-lo.

Na penúltima edição de "Equilíbrio", de novo, só se ouviram interessados. Para falar sobre os benefícios da equoterapia, a reportagem ouviu quatro especialistas... em terapias com cavalos.

O texto também começava com um número impactante -"andando a cavalo, a pessoa recebe cerca de 2.000 novos estímulos cerebrais"-, sem citar a pesquisa de onde saiu o cálculo ou o que isso significa. A reportagem, sobre os ganhos da terapêutica mesmo para quem não tem problemas neuromotores, não tinha ressalvas nem comparação com outros métodos.

A influência dos especialistas se fez sentir também em uma reportagem do "Folhainvest" sobre a valorização de imóveis após reformas (2/4). Os três entrevistados eram:
1) um corretor de apartamentos;
2) uma arquiteta que compra, reforma e vende imóveis em Higienópolis; 3) o diretor da unidade de usados de uma grande imobiliária.

Como era de esperar, teciam as vantagens de recauchutar o imóvel antes de passá-lo adiante. Cada um citou uma porcentagem de valorização após a reforma, por volta de 60%, mas o título foi, inexplicavelmente, para "mais de 30%".

Em artigo na Folha (14/4), ao citar o viés dos especialistas ouvidos na imprensa, o professor titular de finanças da FGV William Eid Jr., 55, fala de um amigo jornalista que adoraria colocar nas reportagens "João da Silva, comprado, diz que a Bolsa vai subir. Já Antônio das Neves, vendido, diz que vai cair".

Se não dá para ser tão "explícito" na identificação das fontes, o melhor é buscar um contraponto. Por interesse ou paixão, o especialista só vê maravilhas naquilo que faz. Ao repórter cabe questionar em vez de engolir pílulas douradas.

A lição de Talese

Muito interessante o artigo de Maurício Stycer publicado hoje na Folha.


MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
A lição de Talese
São Paulo, julho de 1986
MAURICIO STYCER

A PRIMEIRA oportunidade que tive de colocar em prática os ensinamentos de "Aos Olhos da Multidão" (Expressão e Cultura, 1973), de Gay Talese, ocorreu em julho de 1986.

Repórter iniciante no "Caderno B", do "Jornal do Brasil", fui premiado com a missão de acompanhar, dos bastidores, um show do RPM, a banda de rock que fazia mais sucesso naqueles meses.

Espécie de bíblia dos jornalistas culturais na década de 1980, o livro de Talese circulava em cópias xerocadas com o estranho título que seu primeiro editor brasileiro lhe deu -a tradução literal do original, "Fama e Anonimato", só seria adotada na edição de 2004, pela Companhia das Letras.

Entre tantas lições, a que mais me encantava no livro era a que dizia respeito ao milagroso poder da observação.

No mitológico perfil que escreveu sobre Frank Sinatra, como se sabe, Talese não falou com o cantor, apenas o observou -além, é claro, de conversar com integrantes do seu séquito.

Em São Paulo, num sábado de manhã, embarquei com o grupo no ônibus da Poladian que os levaria a Araraquara para mais um das centenas de shows da turnê.

"24 horas na vida do RPM" foi o título da reportagem, publicada no dia 25 de julho com fotos de Dilmar Cavalher, que mostravam o delírio das fãs de Paulo Ricardo.

O acesso franqueado à reportagem permitiu a constatação do clima pesado entre os integrantes da banda. No hall do hotel, na hora em que os músicos sairiam em direção ao ginásio onde aconteceria o show, por exemplo, testemunhei a fúria do tecladista Luis Schiavon com Aguiberto Santos, secretário do grupo: "Te falei para você só me chamar quando o cara já estiver aqui embaixo".

Paulo Ricardo ainda demoraria 15 minutos para descer.

Segundo Arthur Dapieve, no livro "BRock - O Rock Brasileiro dos Anos 80" (Editora 34), essa reportagem teve o mérito de ser a primeira a mostrar que Paulo Ricardo, Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo P.A. Pagni já não se aguentavam mais, sinalizando a dissolução do grupo, o que ocorreria, pela primeira vez, em agosto de 1987, um ano depois.

O segundo parágrafo da reportagem mostra como absorvi de forma confusa os ensinamentos de Gay Talese. Descrevendo o clima dentro do ônibus, ao final do show, anotei:

"Paulo Ricardo, o líder da banda, adormeceu sabendo que uma laringite, recentemente diagnosticada, era a culpada pela rouquidão que o atacou ao final do show. Luis Schiavon, tecladista e cofundador do RPM, dormia intranquilo, irritado com os constantes atrasos de seu amigo Paulo Ricardo. Fernando Deluqui, o guitarrista, sonhava com um futuro trabalho solo, mais voltado ao seu modo de pensar. Paulo P.A. Pagni, o baterista, sonhava com seu cachorro de estimação, assassinado a pauladas por um ladrão dois dias antes.

"Aguiberto Santos, secretário e babá do RPM, não dormia: pensava em como poderia conseguir, algumas horas depois, uma passagem na ponte aérea para Moyra Linch, mulher de Paulo Ricardo, que resolveu, depois de tudo combinado, acompanhar o grupo ao Rio, para a gravação de mais um programa do Chacrinha."

Dias depois da publicação do texto, fiz no Rio uma longa entrevista com o líder da banda, na qual ele tocava apenas de leve num problema que, então, afetava o relacionamento entre os quatro integrantes: o uso de drogas.

Três meses depois da entrevista, Paulo Ricardo foi detido no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro com alguns gramas de maconha.

Tempos depois, ao reencontrar o grupo num evento, Schiavon usava uma muleta, em decorrência de algum problema ortopédico. Ao me ver, levantou a muleta, fazendo o gesto de que gostaria de me acertar com ela.
Entendi como uma brincadeira, mas, pedindo perdão a Gay Talese, preferi não me aproximar para observar melhor.

Ruy Castro e os limites da biografia

Deu na Folha. E é texto do Mestre.


Limites da biografia
RIO DE JANEIRO - Desde que me dediquei a escrever biografias, descobri que nenhum biografado vivo é confiável. Por estar vivo, ele terá de servir de fonte a seu próprio respeito -mas, por ser muito vivo, mentirá ou omitirá informações importantes e influenciará outros a fazer o mesmo. Pior ainda: por continuar vivo depois do livro pronto e por estar sujeito às cascas de banana que a vida nos joga, poderá cometer algo que contrarie esta biografia. E, com isso, adeus, livro ou autor.

Vide a biografia de Woody Allen, por Eric Lax, lançada em 1991.

Quando ela saiu, Woody era amado como artista e pessoa, e o livro era perfeito. Em 1992, veio o escândalo envolvendo-o com Soon-Yi, enteada de sua mulher, Mia Farrow.

A unanimidade trocou de sinal, e Woody passou a ser odiado. Bem, isso foi há 20 anos. Woody continua casado com Soon-Yi, o que, de certa forma, o absolveu. Lax não se deixou derrubar, mas seu livro tombou pelo caminho.

Uma mesa na recente Bienal do Livro, em Brasília, discutiu os limites da biografia, perguntando até que ponto elas são "definitivas". A conclusão foi a de que nenhuma é, esteja o biografado morto ou vivo. Concordo. Mas, dependendo de como é feita, pode-se chegar muito perto.

Se o biógrafo se dedicar ao biografado por um mínimo de três anos "full-time" e ouvir pelo menos 200 pessoas -e, algumas, tantas vezes que a média entre elas costuma dar cinco-, tem-se que o autor terá feito mil entrevistas (ao vivo ou por outros meios). É inevitável que, por mais oculto, tudo de significante na vida do biografado apareça.

Há dias, fui honrado com a possibilidade de biografar Millôr Fernandes. Recusei -porque acho cedo para isso. Nesse momento, Millôr não tem um só defeito. E todo biografado, por maior que seja, precisa de defeitos que o redimam.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A bizarra imprensa esportiva chinesa

Deu hoje no site "Vista Chinesa", do Fabaiano Maisonnave.


A bizarra imprensa esportiva chinesa

Pelé visita instalações olímpicas em Pequim (22.ago.2008/Divulgação).
Por Eric Vanden Bussche, de Taipei (Taiwan)
Em fevereiro de 2004, a seleção de futebol do Kuait, então dirigida pelo brasileiro Paulo César Carpegiani, desembarcou em Guangzhou para uma partida contra a China. Na época, eu trabalhava num jornal chinês e estava no sudoeste do país realizando uma reportagem sobre uma pequena comunidade agrícola da etnia miao. Como era o único do jornal que falava o português, fui escalado para entrevistar o técnico brasileiro, embora não entendesse nada de futebol.

O editor queria que eu pautasse a entrevista sobre declarações que Paulo César supostamente havia feito à imprensa chinesa sobre a sua rivalidade de 30 anos com o técnico da China, o holandês Arie Haan. Ambos haviam jogado por suas respectivas seleções na Copa do Mundo de 1974, na qual a Holanda despachou o Brasil por 2 a 0 na semifinal.

Segundo suas supostas declarações, Paulo César enxergava o jogo entre o Kuait e a China como uma revanche pela derrota de 1974. Antes mesmo de o técnico brasileiro desembarcar em Guangzhou, manchetes nos jornais chineses já frisavam o seu profundo desejo de vingança contra seu arquirrival Haan.
Liguei para Paulo César e comecei indagando sobre o assunto. Ele ficou perplexo e me surpreendeu ao perguntar o nome do técnico da seleção chinesa. Quando disse que se tratava de Arie Haan, ele respondeu que nunca tinha ouvido falar dele e ainda quis saber se o holandês havia realmente participado do mundial de 1974. “Como é possível ter uma rivalidade com uma pessoa que nem conheço?” insistiu. Mas como explicar então as suas declarações à imprensa chinesa sobre a sua sede de vingança? “Deve ser imaginação da parte deles”, me respondeu com uma gargalhada.

Esse é apenas mais um episódio no bizarro no mundo da imprensa esportiva chinesa, onde é possível encontrar de tudo: matérias que parecem obras de ficção, casos de plágio e supostas “entrevistas exclusivas” com esportistas famosos que não passam de frutos da imaginação dos repórteres.
A cobertura esportiva na China começou a ganhar força a partir do final da década de 90, por dois motivos que impulsionaram a proliferação de jornais e revistas dedicadas ao esporte no país.

Primeiro, a imprensa foi obrigada a se adaptar à economia de mercado, ou seja, tinha de começar a fazer dinheiro. Os dias em que as redações eram alimentadas por generosas verbas do Estado haviam chegado ao fim. Para sobreviver, jornais passaram a lançar outras publicações que atrairiam leitores, dentre as quais tabloides e revistas sobre esportes, cotidiano e moda.

O número de publicações disparou, atingindo mais de 2.200 jornais em todo o país, um aumento significativo se comparado ao pouco mais de 40 que circulavam na época maoísta (1949-1976).  Essas publicações variavam em gosto e gênero. Algumas, como o “Nanfang Zhoumo,” testavam os limites da censura, realizando matérias investigativas sobre corrupção e problemas sociais. Outras, como o “Nanfang Tiyu,” se especializavam em esportes e ocasionalmente publicavam notícias de gosto duvidoso, como um artigo que examinava o tamanho dos seios de uma ex-mulher de um astro do futebol mundial. Ambos eram devorados por leitores cansados da retórica marxista da imprensa oficial.

O segundo fator que alavancou o jornalismo esportivo nessa época foi a chamada “febre do futebol” que se espalhava pelo país. A partir de 1982, os chineses começaram a se apaixonar pelo futebol, principalmente o do Brasil. Zhang Xiaozhou, um dos colunistas esportivos mais famosos do país, certa vez me disse com orgulho que ele fazia parte da “geração chinesa de 82”, que havia aprendido a apreciar o futebol assistindo à seleção de Telê Santana jogar no Mundial da Espanha.

Em meados da década de 90, a China organizou o seu primeiro campeonato profissional de clubes, que contava com a presença de jogadores brasileiros.

Marcelo Marmelo, que antes de chegar ao país era um jogador desconhecido da segunda divisão no Rio de Janeiro, se tornou um astro. No auge de sua fama, ele não conseguia passear pela rua sem causar um tumulto entre torcedores.

Tudo que cheirasse a futebol passou a ganhar enorme popularidade. Chineses começaram a acompanhar atentamente os jogos dos campeonatos italiano e inglês e, durante a Copa da França em 1998, muitos acordavam às 2h ou 3h da madrugada para assistir aos jogos.

Nesse ambiente, a imprensa esportiva floresceu, atingindo o seu auge em 2002, quando sua seleção fez história ao se classificar para uma Copa do Mundo pela primeira vez.

A quantidade de jornais esportivos se multiplicava. E seus jornalistas passaram a ser extremamente bem remunerados, especialmente aqueles que conseguiam entrevistas exclusivas com craques estrangeiros.

Os repórteres pareciam torcedores obcecados com craques estrangeiros. No sorteio dos grupos para a Copa da Coreia e do Japão, um jornalista chinês ficou estático quando Pelé o cumprimentou com um “Hello.” Ele passou os próximos dias repetindo a todos que encontrava que era “amigo do Pelé.” Alguns meses depois, na chegada da seleção portuguesa a Macau para um amistoso contra a China, jornalistas chineses correram em direção aos craques portugueses para conseguirem fotos e autógrafos.

Em 2003, na ocasião da turnê que o Real Madrid realizou pela China, um jornalista chinês estava no banheiro da concentração do clube espanhol em Kunming, no sudoeste do país, quando o astro recém-contratado David Beckham entrou para fazer suas necessidades. Eles se cumprimentaram com um sorriso. Quando esse jornalista me contou essa história, ele pediu que não comentasse nada com os seus colegas. Por quê? Para quem conhecia o vale-tudo da imprensa esportiva chinesa, a resposta era óbvia. Caso seus editores descobrissem, no dia seguinte a manchete da Primeira Página do seu jornal provavelmente seria: “Nosso correspondente tem a honra de urinar ao lado de David Beckham”.

Entrevistas com esportistas de fama internacional (muitas frutos da imaginação dos jornalistas) começaram a encher as páginas dos jornais. O conteúdo era irrelevante para os editores. O importante era conseguir uma fotografia do correspondente ao lado do astro para provar que a entrevista era legítima. A fotografia servia como certificado de garantia e impulsionaria as vendas e a receita de publicidade.

Em alguns casos, era óbvio que tais entrevistas eram fictícias, pois eram feitas por repórteres que não tinham fluência na língua do astro ou simplesmente não estavam credenciados para cobrir o evento. Mas ninguém parecia se importar, contato que houvesse a fotografia.
Os jornalistas procuravam suas vítimas em eventos internacionais, às vezes se passando por torcedores para conseguirem a tão cobiçada fotografia. Com ela nas mãos, seguiam ao seu quarto de hotel e redigiam uma entrevista qualquer. Eles não se preocupavam em serem desmascarados. Afinal, qual o craque brasileiro, inglês ou italiano que sabe ler chinês?

O caso mais escandaloso envolvendo essa prática ocorreu pouco antes do início da Copa do Mundo de 2002.

O jornal esportivo chinês “Titan Zhoubao” publicou uma suposta entrevista exclusiva com o craque português Luis Figo, realizada por um de seus repórteres, Wen Tao. Parecia uma verdadeira façanha. Sem fluência no português e com um inglês apenas razoável, Wen Tao entrevistara um craque que não falava com a imprensa havia mais de um ano.

Ao ser questionado por Wen Tao sobre o astro inglês David Beckham, Figo supostamente respondeu: “Acho o Beckham mais bonito do que eu.” A frase virou manchete da primeira página do “Titan Zhoubao”, e a entrevista foi publicada juntamente com uma foto que mostrava o craque português dando um autógrafo a Wen Tao.

Havia apenas um problema: a entrevista era fruto da imaginação do jornalista. Por um descuido de Wen Tao, a sua “entrevista exclusiva” acabou chegando às mãos do assessor de imprensa da seleção, Fernando Santos. O “Titan Zhoubao” se viu obrigado a pedir desculpas à seleção portuguesa. Mesmo assim, Wen Tao continuou como correspondente do jornal no mundial de 2002, publicando artigos sob um pseudônimo.

Infelizmente, o debate atual sobre a imprensa chinesa no Ocidente gravita em torno da liberdade de expressão e censura por parte do governo. Mas há outros problemas extremamente graves como a falta de princípios éticos e profissionais. Essa não é uma questão que aflige apenas a imprensa esportiva. Recentemente, o “New York Times” examinou a prática corriqueira da mídia chinesa em aceitar dinheiro para publicar reportagens promovendo empresas e produtos.

A falta de princípios éticos nas Redações dá ao governo chinês uma desculpa para continuar a controlar a imprensa com mão de ferro. Por isso, essa questão não pode mais ser tratada por analistas ocidentais apenas como um tema secundário. As práticas empregadas por muitos jornalistas chineses são tão prejudiciais ao desenvolvimento da imprensa do país quanto a censura.
Eric Vanden Bussche é especialista em China moderna e contemporânea da Universidade Stanford (EUA). Possui mais de uma década de experiência na China. Foi professor visitante de relações Brasil-China na Universidade de Pequim e pesquisador do Instituto de História Moderna da Academia Sinica, em Taiwan. Suas áreas de pesquisa incluem nacionalismo, questões étnicas e delimitação de fronteiras da China. Sua coluna é publicada às sextas-feiras.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O que os assessores precisam fazer para ganhar dinheiro das novas "celebridades"

"Musa dos Marceneiros e outras historinhas". Deu hoje na coluna do Xexéo, no Globo. De matar de rir. Para ler é só passar a mãozinha.