quinta-feira, 31 de julho de 2008

Jornalismo Impresso: Nem tudo são más notícias

Está no Observatório da Imprensa.

JORNALISMO IMPRESSO
Nem tudo são más notícias

(Reproduzido do semanário The Economist, 24/07/08; tradução: Jô Amado)

Talvez não chegue a ser um consolo para os estressados jornalistas do mundo rico, mas em muitos países emergentes a indústria jornalística vem crescendo. Segundo dados divulgados em junho pela Associação Mundial de Jornais – World Association of Newspapers (WAN), uma entidade com sede em Paris –, a venda de jornais no Brasil aumentou 12% no ano passado. Nos últimos cinco anos, a circulação cresceu mais de 22%. Na Índia, as vendas aumentaram 11%, ampliando o crescimento dos últimos cinco anos para 35%. No Paquistão, o crescimento do mercado jornalístico foi praticamente o mesmo. A mesma tendência pode ser observada em outros países da Ásia e da América Latina.

A busca por notícias tende a crescer na medida em que as pessoas entram para o mercado de trabalho, ganham mais dinheiro, investindo-o, e começam a sentir que têm mais direitos em sua sociedade. A alfabetização acompanha o aumento de riqueza. Para os recém-alfabetizados, folhear um jornal em público é um símbolo forte e gratificante de sucesso.

Investimento na educação

Na Índia, as campanhas de alfabetização – desenvolvidas pelo governo e por ONGs – são, em grande parte, responsáveis pelo aumento da venda de jornais, segundo Ashok Dasgupta, do Hindu, um grande jornal com sede em Chennai. "Criar empregos é um estímulo", diz ele, "e novos jornais e revistas estão pipocando todo dia." Em sua maioria, publicações pequenas, mas o número de grandes jornais diários, de qualidade, passou de quatro, em 2006, para os atuais seis. E até o final do ano sairá um sétimo.

Na Índia, os diretores de jornais gozam de uma tradicional liberdade de expressão. Mas também nos países com governos mais intrometidos os jornais vêm, quase sempre, se dando bem. Isso é particularmente real no caso de pequenos jornais. Governos com poucos recursos raramente têm condições de controlar uma profusão de jornais locais e regionais. No Mali, por exemplo, os jornais estão pipocando "como cogumelos", diz Souleymane Kanté, administrador local da World Education, uma ONG norte-americana que tem por objetivo erradicar o analfabetismo. O governo do Mali tem sob controle as grandes publicações nacionais, mas há lugar para jornais locais e regionais, diz Kanté.

O enorme esquema de supervisão da China mantém sob controle grandes e pequenos empreendimentos. Mas, também ali, os jornais vêm florescendo. Nos últimos cinco anos, as vendas cresceram mais de 20%, alcançando uma venda diária de 107 milhões. (Em termos comparação, as vendas diárias nos Estados Unidos são de cerca de 50 milhões.) A crescente riqueza da China ajuda a explicar o fato. Assim como um alto nível de alfabetização, devido, em parte, ao investimento feito pelo Partido Comunista na educação.

"Toneladas de anúncios"

Shaun Rein, do China Market Research Group, em Xangai, diz que também existem outros fatores. Como todos os jornais chineses são de propriedade do Estado, é provável que continuem sendo baratos mesmo com o aumento das despesas e com os anunciantes procurando a internet. A luta de Beijing contra a corrupção também pode ser um fator. Algumas autoridades vêem as publicações locais como aliados no esforço para desmascarar políticos regionais e municipais corruptos e fazem vista grossa às restrições aos repórteres. Há também as que desaprovam, gerando boatos sobre um debate nos escalões superiores do partido – não divulgado pela mídia, chinesa, naturalmente.

Os jornais também vêm se dando bem em países de renda média, segundo a Associação Mundial de Jornais – WAN. Na Argentina, por exemplo, a circulação aumentou em mais de 7% no ano passado. Manuel Mora y Araújo, da agência de consultoria Ipsos, diz que os grandes grupos de comunicação dos Estados Unidos e de outros países ricos não vêm investindo em empresas jornalísticas na Argentina possivelmente devido a seus próprios problemas, por falta de recursos. Entretanto, diz ele, "a imprensa não está preocupada – há toneladas de anúncios".

2 comentários:

Mariana Carnevale disse...

Oi, PC!

Li esse texto no Comunique-se e achei muito bacana. Não sei se vc já deu uma olhada, mas de qualquer forma, estou repassando... Dá para ler melhor pelo Comunique-se!
Abraços!!

QUAL É O PIOR TELEJORNAL DO BRASIL?

Antonio Brasil(*)



Pergunta difícil de responder. Não faltam péssimos exemplos em nossas redes de TV. Principalmente no horário nobre. Tem telejornal para todos os gostos e desgostos. Cada um pior do que outro.

Tem telejornal tradicional que não se preocupa com o conteúdo ou a audiência. Sempre foi líder, nunca se sentiu ameaçado e não possui grandes competidores. Tem telejornal muito longo e muito chato que ninguém assiste. Confunde qualidade com quantidade de conteúdo. São muito chatos, mas não precisam se preocupar com audiência. Tem as contas pagas pelos nossos impostos. O maior interesse é garantir bons empregos para os amigos e agradar aos donos do poder.

Também tem telejornal curto e grosso. Não diz nada porque não tem nada a dizer. O dono do canal está mais preocupado com a venda de carnês ou baús. Prefere sortear prêmios na TV a investir de forma séria em jornalismo de qualidade.

E tem telejornais pobres e ruins. Muito pobres e muito ruins.

Nova Geração?
Esta semana pude assistir a dois exemplos de telejornais pobres e ruins. Muito pobres e muito ruins. O primeiro é o velho jornal da nova rede NGT. O segundo é o novo telejornal da velha rede CNT.

É isso mesmo. Por mais incrível que pareça, ela está no ar novamente. Aquela rede de TV que já foi TV Tropical, Rede OM (Osvaldo Martinez) depois virou CNT, se transformou em JB e agora voltou a ser Central Nacional de TV. Ou seja, a CNT está no ar novamente e tem um telejornal.

Segundo o release da emissora:
"A Rede CNT foi a primeira a utilizar esta tecnologia para as suas emissoras e afiliadas a partir de 1999. As emissoras componentes da Rede recebem a programação com qualidade digital, utilizando canalização Embratel, via satélite. Por este sistema, a CNT opera com o que há de mais moderno em transmissão de sinais. É o primeiro passo para o avanço e utilização de tecnologia totalmente digital, aportando sua estrutura para o recém-definido Sistema Brasileiro de Tv Digital (SBTVD-T)".

Ou seja, se você ainda tinha alguma dúvida de que a precipitada e estabanada implantação da TV digital no Brasil não melhoraria a qualidade da nossa programação e que só garantiria "mais do mesmo", agora não tem mais.

E, por outro lado, se você não tem a menor idéia do que seja essa outra rede, essa tal de NGT – afinal, são tantas siglas de programas e TVs ruins no Brasil – NGT significa "Nova Geração de TV" (ver aqui).

De nova, na verdade, essa rede não tem nada. A programação da Nova Geração é muito pobre e muito velha. Parece com o pior dos anos 50. Muita falta de imaginação e excesso de pobreza e improvisação.

Para variar, tem muitos programas de culinária, de videoclips e exibe velhos filmes que ninguém consegue assistir. São muito velhos e ruins. As cópias devem ter sido descartadas por alguma videolocadora antes de falir.

Também tem programas com títulos duvidosos ou misteriosos como "Desfrutando a vida diária" (sic), "Planeta Luluca", "TVLISÃO", "Barlada" (acho que é erro de ortografia), "Stay Heavy" (apesar de gostar muito de rock, o programa é pesado e muito chato) e um programa infantil bem apropriado para a realidade da rede: "TV Nanica". Não é brincadeira. É sério. O nome do programa é este mesmo: "TV Nanica".

Para que quiser dar uma olhada na nova rede, o vídeo institucional pode ser visto aqui. Mas como todo vídeo institucional...
Deixa pra lá!

Troféu Brasil
O meu show favorito da rede do Butantã em São Paulo é o "Clube do Forró" (ver aqui). Outro programa inacreditável da Nova Geração de TV. Tem que ser visto para acreditar na precariedade do programa. Nem mesmo na TV Comunitária do Rio de Janeiro, uma televisão reconhecidamente pobre e ruim, tem algo tão bizarro. O "Clube do Forró" da rede NGT é sério candidato ao tradicional e muito aguardado troféu Brasil para os "Piores Programas da TV Brasileira".

Aguardem as premiações em breve!

Notícias óbvias
Mas voltando ao que nos interessa, ao jornalismo, também pude assistir a outro telejornal pobre de horário nobre: o NGT notícias.
Segundo a divulgação: "A rede NGT apresenta o NGT Noticias, todos os dias as noticias e informações que não são mostradas pelos demais telejornais, trabalhando com toda a rede de afiliadas, mostrando o que realmente é de real utilidade. Nada óbvio, obviamente".

Mas o telejornal é mais do que óbvio. É inacreditável. Um telejornal muito, muito ruim e pobre. O estúdio com cenário pequeno e discreto é o suficiente para caber a grande e desconhecida apresentadora. As matérias também são óbvias e ruins. Mas há algo surpreendente e talvez até positivo na bancada. A apresentadora é muito simpática e articulada. Para nossa surpresa foge aos padrões estéticos estabelecidos pela televisão. Quem sabe se torna um novo padrão de beleza para os telejornais brasileiros.

Mas, infelizmente, o telejornal é muito, muito ruim. Além de pautas óbvias, a imagem das externas é péssima e os repórteres parecem sempre despreparados e até mesmo assustados diante das câmeras. Apesar da boa vontade e profissionalismo, parecem atores e atrizes em peça de teatro amador. Pouca técnica e muita improvisação. Não convencem ninguém de nada. Precisam de altos investimentos em treinamento, melhores equipamentos e pautas menos óbvias.

Não estamos mais nos anos pioneiros da TV. Não há mais lugar para tanta improvisação e amadorismo. TV e jornalismo de TV são coisas sérias e muito caras.

CNT Jornal
É o principal telejornal da rede de televisão paranaense CNT. Segundo a divulgação da emissora, "Procura mostrar os fatos mais relevantes da semana, sempre tentando ser o mais imparcial possível, pautando pela melhor qualidade da informação. Um jornalismo sério e dinâmico, sedimentado numa linear lógica informativa , com análises profundas e arraigadas em valores éticos e profissionais. Nós temos a informação, mas a opinião é sua!"

A realidade é bem outra.

Em verdade, o telejornal de horário nobre da rede CNT preferiu cometer o velho e mesmíssimo erro de sempre: investir alto em um grande nome para a bancada e pouco em pequenas equipes de produção de jornalismo.

A Salete Lemos é ótima. Figura tradicional e muito conhecida dos telespectadores paulistas, já teve passagem nas bancadas de vários telejornais. Na TV e na Internet, ficou ainda mais famosa por "dizer a verdade" e ser demitida da TV Cultura (ver aqui). Lembram?

Salete faz das tripas coração para apresentar um telejornal pobre e ruim. No velho e desgastado estilo do Boris Casoy, ela fala e aparece muito, comenta tudo, gesticula bastante, mas pouco. Muito pouco. O jornal naufraga na chatice das pautas óbvias. Nada de novo.

As reportagens são quase tão amadoras quanto as produções da rede NGT. Mais um telejornal de pauta previsível, as mesmas matérias de sempre, produzidas da mesma maneira. Cópias mais pobres e piores do jornal da emissora líder. Nada de novo. Nada que valha a pena assistir.

Telejornal não é time de futebol
Produzir telejornalismo de qualidade é coisa séria. Se assistir TV é um hábito adquirido em longo prazo, conquistar audiência para telejornal requer ainda mais tempo e é bem mais complicado.

Exige muito tempo e dinheiro. Requer investimentos sólidos na conquista de credibilidade, no treinamento de boas equipes de produção, alguma ousadia em experimentação de novas linguagens e tecnologias, pesquisas quantitativas e qualitativas de audiência e, muita, muita paciência.

A audiência de telejornais é algo importante. Mas não deveria ser o único objetivo das nossas emissoras de TV. Jornalismo de qualidade é antes de tudo investimento social em longo prazo.

É certo também que o modelo padronizado de telejornais continua em decadência em todo o mundo. A audiência diminui e envelhece. As emissoras de TV não pesquisam novas linguagens, não investem em novas idéias e tecnologias. Os telejornais são sempre previsíveis, chatos e distantes do público.

Não dizem ou mostram o que realmente queremos ver porque desconhecem o que o público realmente quer ver. Não investem em pesquisa. Investem somente nos índices de audiência e nos "achismos" de velhos editores. Aqueles jornalistas de TV que sabem tudo ou quase tudo, mas não garantem o sucesso ou a audiência dos telejornais.

E se os executivos dessas emissoras não obtêm os resultados almejados, optam pela saída mais fácil: demissão sumária de muitos jornalistas e cancelamento de programas.

Telejornal não é time de futebol. A equipe e o técnico não podem ser descartados em função das paixões da torcida ou dos resultados no campeonato. Telejornalismo é coisa séria. É serviço público obrigatório exigido no contrato de concessão entre a sociedade e a emissora de TV. Em tempos de renovação de concessões, deveria ser monitorado e avaliado dentro de padrões de qualidade estabelecidos pela própria sociedade. A nossa realidade, infelizmente, é bem outra. Mas um dia muda!

Enquanto isso, qual é o pior telejornal do Brasil? Não faltam opções.

Não é à toa que o JN ou seus clones continuam na liderança de audiência. Mas uma audiência decrescente e envelhecida.

A cada dia TV se torna sinônimo exclusivo de entretenimento. Informação está na Internet.

Bons ou ruins, curtos ou longos, pobres ou ricos, o fim dos telejornais está próximo. Muito próximo!

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey.

pc guimarães disse...

Valeu, Mari. Vou ler com calma.