segunda-feira, 7 de julho de 2008

Rescaldo da Flip - 2: "Como falar de livros que não lemos?"

Vale a pena ler a entrevista do psicanalista francês Pierre Bayard, autor do livro "Como falar dos livros que não lemos?". Li o livro e não gostei. Prefiro esta entrevista publicada sábado na Folha de S. Paulo.

Ler ou não ler?
O professor e psicanalista francês Pierre Bayard propõe a "dessacralização' da leitura em antimanual irônico; "Não conseguimos atrair as pessoas para a leitura se as fazemos ter medo de ler'

MARCOS STRECKER
ENVIADO ESPECIAL A PARATY


A idéia é provocativa e francamente irritante para muitos, especialmente em um evento como a Festa Literária Internacional de Paraty. Mas é justamente propondo a "dessacralização" da leitura no bem-humorado antimanual "Como Falar de Livros que Não Lemos?"(Objetiva) que o psicanalista francês Pierre Bayard se apresenta amanhã, quando debate com o colunista da Folha Marcelo Coelho na mesa "Os Livros que Não Lemos".
Em entrevista, o professor de literatura francesa na Universidade de Paris-8 diz que seu livro foi muito bem recebido nos EUA, mas não no Reino Unido.
"O problema é que lá as pessoas levaram ao pé da letra." Afirma que procurou fazer uma obra divertida sobre a consciência pesada dos não-leitores e que houve muitos mal-entendidos quando o livro foi lançado.
"Mas eles acabaram levando ao seu sucesso", diz, sorrindo.

FOLHA - As pessoas devem ter vergonha de não ler alguns livros?

PIERRE BAYARD - Eu tento mostrar que as pessoas não devem ter vergonha. Tento "desculpabilizar" o leitor, mostrando que freqüentemente os intelectuais, em especial os professores, tentam transmitir a imagem do livro como um objeto sagrado. Os grandes leitores sabem que há muitos livros bons que nunca leram. E, mesmo alguns livros que são importantes, o que significa não ter lido? Sempre dividimos as obras nas categorias lidas e não-lidas. Para os intelectuais, sobretudo, há um espaço intermediário, o dos livros com os quais vivemos. Às vezes nós apenas folheamos, outras vezes apenas começamos, outras vezes somente ouvimos falar ou lemos críticas sobre eles. Podemos até ter lido da primeira à última linha, mas há muito tempo, e já os esquecemos. Mostro como substituímos as obras por livros imaginários.

FOLHA - Não é necessário ler todo o livro para compreendê-lo?

BAYARD - Tento tirar do discurso sobre os livros tudo o que significa "é necessário" ou "se deve". Acho que há muitos itinerários possíveis. Claro que há o mais habitual, de ler da primeira à última linha. Mas há outras formas. Podemos apenas folhear ou ler até uma certa altura. Pode não ser o bom momento para lê-los. Assim como há várias maneiras de conhecer uma pessoa.

FOLHA - Os seus argumentos são de um professor ou de um psicanalista?

BAYARD - Naturalmente, há uma dimensão psicanalítica, já que a questão inicial da psicanálise é a de liberar o paciente da culpa. Mas também é um livro de professor. Percebi, na prática, que os alunos tendiam a considerar o livro como um objeto religioso. Tendiam a ler da primeira à última linha sem se dar a liberdade de percorrer a obra. Meu livro é sobretudo para os grandes leitores. Houve uma certa confusão, porque alguns jornalistas consideraram que eu queria dissuadir as pessoas da leitura. Mas sou um grande leitor, precisei ler muitas obras para poder escrever meu livro. O grande leitor é uma pessoa livre em relação aos livros.

FOLHA - Já que estamos em uma festa literária e o sr. diz que é um grande leitor, o sr. leu os livros dos outros autores?

BAYARD - Há alguns autores de quem eu realmente li os livros. Da psicanalista Elisabeth Roudinesco, por exemplo, eu já li muito. Há autores cujas obras me interessam, mas que não comecei realmente a ler. De Alessandro Baricco, por exemplo, eu comecei a refletir sobre os seus livros.

FOLHA - O sr. leu Baricco?

BAYARD - Sim... Bem, não... É complicado [risos].

FOLHA - O sr. está no Brasil, país com baixo índice de leitura. Uma obra como a sua, quando diz que não é necessário ler um livro, não pode ser considerada antipedagógica?

BAYARD - Mas eu acho que é necessário ler! Apenas acho que não conseguimos atrair as pessoas para a leitura se as fazemos ter medo de ler. Precisamos ensinar o prazer da leitura, que consiste em escolher os livros que são bons para você mesmo. Isso é muito difícil. E não eleger alguns livros que as pessoas sejam obrigadas a ler.
No meu livro, por exemplo, eu digo que nunca acabei de ler "Ulisses", de James Joyce. Isso é um escândalo para um intelectual. Não é que não seja um livro bom para mim. Talvez não o seja neste momento.

FOLHA - A internet é um bom meio de formar leitores ou é o contrário?

BAYARD - É um instrumento formidável. Mas há um risco de apenas se "passar os olhos" em tudo. Por outro lado, vejo muitos alunos que entram na biblioteca, selecionam alguns livros e tratam de lê-los da primeira à última linha.
Quantos livros vão acabar lendo em suas vidas?

2 comentários:

Flor Baez disse...

este é um debate que nunca vai cessar...

Ler ou não ler, eis a questão!

eu leio! sou mais feliz assim

pc guimarães disse...

Faz muito bem.