segunda-feira, 28 de julho de 2008

"O Cavaleiro das Trevas e a PM do Rio de Janeiro: as políticas públicas contra o caos", por Oswaldo Munteal e Tahirá Endo

Mais uma vez meu querido colega e professor Oswaldo Munteal me presenteia com um artigo inédito para o blog. Escreveu em parceria com Tahirá Endo.

“O Cavaleiro das Trevas e a PM do Rio de Janeiro: as políticas públicas contra o caos”

Este texto é dedicado ao meu querido Tito Ribeiro um pequeno grande homem

Oswaldo Munteal e Tahirá Endo

“Não se pode mais confiar mesmo em ninguém.
Tem que se fazer tudo sozinho”

Coringa

Do mito de Prometeu às histórias de Frank Miller, ressurge a idéia generalizada de um bem maior numa sociedade de perversos. Prometeu pediu a Zeus que o tornasse um mortal. Mas afinal quem encarna o bem? Como bem lembra o personagem vivido por Heath Ledger em Batman, O Cavaleiro das Trevas: “A sociedade só pensa em dinheiro. Eu gosto do que é barato, gasolina, pólvora e fogo, e eles têm algo em comum são baratos”. O lado sombrio de todos nós aparece fortemente em mais este bom negócio da indústria do cinema. Os arquétipos aparentemente foram forjados na caracterização do bem e do mal. Os especialistas pedem um “Oscar” para Ledger, e o público nas salas de projeção fica extasiado com a exibição do mais puro e “natural” estado de violência.

O cavaleiro das trevas como história introduz um dado novo nos quadrinhos, um herói que se torna um mártir. O objeto da investigação de Miller/Nolan é a tragédia de estar só num mundo de feras, sendo também uma delas. E o pior em nome delas produzindo mais violência para defendê-las. O trabalho com a Sombra requer uma forte intensidade emocional e reflexiva. O pensamento e a intuição a um só tempo articulados objetivando a compreensão de um fenômeno que se torna cada vez mais agudo, ou seja, o da violência.

No filme de Nolan, como na vida a força policial se apresenta com todos os seus limites e impossibilidades. Batman se rende ao Coringa (uma espécie de trapaceiro ou jogador), e este à lógica do poder repressivo, que na luta contra o crime instaura ainda maior desordem. O Cavaleiro das Trevas se torna um banido da sociedade, um mártir sem rumo, um sem lugar num mundo sem razão. O menino que fecha a trama diz: “mas ele não fez mal a ninguém”. O homem morcego ultrapassou os limites para impor o controle social, rompeu as regras, e ele também quebrou o pacto hobbesiano. Pelo menos é o que parece nos quererem fazer crer os pós-modernos quando convidados ao debate acerca das alternativas da razão no mundo contemporâneo.

A principal corrente do pensamento político clássico define o Estado pela sua peculiar característica de usar a violência de modo legítimo e, dentro desta sociedade buscar o monopólio do uso desta. No Brasil, e especialmente na cidade do Rio de Janeiro, vemos com o avanço das milícias, a atuação da ONGs, e a segurança privada nas ruas da zona sul, um recuo do Estado no cumprimento deste papel.

As milícias representam uma inversão do papel do Estado, agentes ou ex-agentes armados do Estado procuram à legitimidade nas milícias, e cobram de acordo com os seus interesses, serviços e taxas das comunidades, além de se utilizarem da violência armada para coerção. Assumem o seu poder a partir de ligações com políticos eleitos e financiando diretamente a campanha eleitoral de seus aliados.

As ONGs entram neste debate discursando sobre a importância de um novo setor nem público nem privado para a resolução dos problemas que afligem nossa sociedade, como a educação, moradia, violência sexual, tráfico ilegal de armas, pessoas, etc. Mas na prática o chamado terceiro setor, devido à falta de controle, abre espaço para desvios de verba, para abertura de ONGs de fachada, entre outras falcatruas. Quando elas agem, dão soluções tópicas e parciais a questões que não podem ser deixadas para amanhã, como a saúde, educação e segurança públicas.

A classe média não se preocupa com a situação de nossa saúde pública e busca os planos privados. A educação pública só é problema para classe média devido à pauperização de nossas universidades públicas, pois é a única estrutura de ensino público que ela utiliza. Com relação ao transporte público ela se fecha em seus automóveis particulares. Todo este descaso com as instituições públicas se relaciona com o problema da segurança pública em nossa cidade. A classe média só se preocupa e fica revoltada com a violência de nossos policiais quando ela própria é atingida.

* Oswaldo Munteal é professor adjunto de história contemporânea da UERJ e pesquisador da EBAPE/FGV e Tahirá Endo é bacharel em Ciências Sociais e auxiliar de pesquisa EBAPE/FGV.

2 comentários:

Mari disse...

Estou adorando a contribuição do professor Oswaldo para o blog. Textos riquíssimos e atuais.

Falando em blog, postei material novo no "Livrarias & Livreiros". O Lucas me passou os dados para que eu mesma possa atualizar o blog. Dá uma olhada lá e qualquer coisa, fale comigo.

Abraços!!!

pc guimarães disse...

Vou lá ver. E obrigado pelo apoio de sempre.