domingo, 20 de julho de 2008

O bom da Folha hoje: entrevista com David Remnick, editor da revista "New Yorker"

Sou fã da revista, li um livro de David Remnick. Vale a pena ler a matéria. Saiu hoje no caderno "Mais!".

Manhattan SEM GELO
HÁ DEZ ANOS À FRENTE DA MÍTICA "NEW YORKER", DAVID REMNICK EXPLICA COMO TIROU A REVISTA DO VERMELHO E AUMENTOU O NÚMERO DE LEITORES JOVENS
TREVOR BUTTERWORTH

Não podemos viver sem o presunto de ganso", diz David Remnick, com a avidez de um gourmand desnutrido. Tem 1,82 m, está se aproximando dos 50 anos e é magro para um jornalista conhecido como comilão.

Ele sugeriu que nos encontrássemos no Esca, um restaurante italiano no centro de Manhattan, cujo nome significa "isca" e cuja estatura, ao que parece, não é apenas por causa da comida. Seu chef obcecado por peixes, David Pasternack, foi o tema de um perfil em 2005 na revista "The New Yorker", em que Remnick acaba de comemorar seu décimo aniversário como editor.

Ele tem muito a celebrar depois de dez anos: a circulação da "New Yorker" aumentou 32%, para mais de 1 milhão de exemplares por semana; os índices de renovação de assinaturas, de 85%, são os mais altos do setor; e, apesar do senso comum de que os leitores jovens não têm concentração para fazer mais que blogs e piadas, a revista viu seu público de 18 a 24 anos crescer 24% e o de 25 a 34, 52%.

Vinte e quatro de seus 47 prêmios National Magazine foram concedidos sob a direção de Remnick. Talvez o mais tranqüilizador seja que o balanço da "New Yorker" passou do vermelho para o azul -embora sua propriedade privada o impeça de revelar os lucros.

É difícil lembrar como as coisas pareciam desesperadas uma década atrás, quando, depois de seis anos como editora da revista, Tina Brown saiu repentinamente para começar a malfadada "Talk".

Se muitos em Manhattan ficaram furiosos com a vinda de Brown, que é britânica, para reformular a revista e torná-la mais amistosa com os anunciantes, sua partida também foi vista como uma profecia terrível. A "Fortune" estimou que em 1998 os prejuízos da "New Yorker" chegavam a US$ 175 milhões [R$ 278 milhões], fazendo dela "um dos maiores buracos de dinheiro da história das revistas americanas".

Experiência anterior
Remnick chegou ao cargo sem nenhuma experiência editorial. Depois de se formar "summa cum laude" em literatura comparada na Universidade Princeton em 1981, foi trabalhar no "Washington Post", passando do plantão policial noturno para esportes e a sucursal do jornal em Moscou, onde a história -"pura sorte", como ele diz- lhe deu a oportunidade de brilhar e, afinal, ganhar um Pulitzer em 1994 por "Lenin's Tomb" [A Tumba de Lênin], seu livro sobre a queda da União Soviética.
Mesmo antes do prêmio, sua reputação já o fizera ser contratado por Brown, um dos primeiros depois que ela chegou à revista, em 1992.

"Nunca pensei em ser editor.
Nunca fui mais feliz do que quando estive em Moscou para o "Washington Post" ou percorrendo o mundo para a "New Yorker". Sinceramente, nunca pensei nisso -e não digo no sentido em que um Maquiavel diria", afirma Remnick.
Realmente, ele era o melhor candidato ao cargo. Depois de oferecê-lo a Michael Kinsley, então editor da revista on-line "Slate", S.I. Newhouse Jr., dono da Condé Nast, pensou melhor, retirou a oferta e escolheu Remnick. Tudo aconteceu em poucos dias.

Em um momento Brown estava lá; no outro Kinsley pareceu estar lá; e no outro Remnick experimentava a queda livre do sucesso imprevisto, que é melhor interpretado, segundo ele, por Robert Redford em "O Candidato", que, depois de uma vitória eleitoral improvável, termina o filme perguntando: "O que fazemos agora?".
Embora haja outras revistas veneráveis nos EUA, não é certo se outra publicação tem o mesmo poder sobre a imaginação dos americanos que a "New Yorker".

Nascida das energias literárias do início dos anos 1920 -Dorothy Parker foi a primeira crítica imperdível da revista- e movida por uma espécie de veneração provinciana pela vida em Manhattan, a revista tornou-se sinônimo de sofisticação inteligente.

Questionado sobre o que fez para revigorá-la, Remnick diz que não houve uma coisa, apenas uma questão de prestar atenção às despesas, concentrar-se em aumentar a circulação real em vez de distribuir exemplares, retirar alguns autores e acrescentar outros.

"Você encontra os jogadores para pôr em campo", diz, citando o lendário ex-treinador dos New York Yankees [time de beisebol] Joe Torre: "Você os coloca lá e os deixa fazer o que sabem fazer melhor".

Futuro do jornalismo
Na verdade, muitos jogadores haviam sido contratados por Tina Brown, entre os quais nomes de primeira linha como Malcolm Gladwell e Anthony Lane, assim como uma equipe editorial central que Remnick também faz questão de citar: Dorothy Wickenden (editora-executiva), Pam McCarthy (subeditora) e Henry Finder (diretor editorial).
Salienta que grande parte do sucesso da revista pertence a eles.

Outro fator que contribuiu para o sucesso da "New Yorker", explica, é que as revistas escaparam à "crise existencial", induzida pela internet, que atormentou os jornais americanos. "Jantei com editores de jornais de todas as categorias, e as conversas às vezes pareciam uma despedida de suicida."

Ele diz que a melhor maneira de ler uma revista ainda é em papel, mas, "para aqueles cuja segunda natureza é ler on-line, eu quero estar lá. Não quero fazer previsões idiotas sobre o que vai ser impresso e o que não vai ser impresso, simplesmente não sei. Mas faço questão de estar lá".

Conseqüentemente, está "profundamente envolvido" na criação do website da "New Yorker" -não que ele seja facilmente convencido pelo tecnoevangelismo. Na verdade, os blogs não lhe dizem muito como escritor -"não tenho nada a dizer se não puder sair de casa e seria um péssimo crítico".

E, até que sites como o Huffington Post comecem a gastar US$ 3 milhões por ano para relatar a guerra no Iraque, diz ele, os jornais que fazem isso continuarão sendo muito mais importantes para o futuro do país.

Como o site também abriu a porta para um público internacional potencialmente enorme, e a revista, sob sua supervisão, desenvolveu um enfoque maior nas atualidades, pergunto se foi tentado a expandir a marca "New Yorker" no exterior.
"Sim", diz Remnick, rápida e enfaticamente. "A questão é até que grau a "New Yorker" é tão "sui generis" e americana para conseguir se tornar um produto internacional de sucesso. Não sei, mas é algo que quero descobrir."

Bonomia
Sua vida fora da revista é comum: gosta de assistir à televisão e escutar jazz, ir ao cinema com sua mulher, Esther Fein (brincando, ele censura o crítico da revista, Anthony Lane, por não falar mal o suficiente do filme "Sex and the City", apesar de Lane ter sido cáustico), e ficar com seus três filhos: Alex, 17, Noah, 15, e Natasha, 9.

Embora os filhos possam se divertir com a comparação, é tentador ver Remnick como o George Clooney do jornalismo americano: sua afabilidade tem a força e a polidez de uma armadura, e seus comentários "off" são conspirativos e desarmam as pessoas.
Ele exala bonomia.

Na última Conferência New Yorker -uma espécie de cúpula de Davos de visionários criativos, que ocorreu em maio-, ele estava disponível para qualquer um que desejasse lhe falar e parecia não apenas estar à vontade, mas realmente apreciar a companhia dos jornalistas que organizaram o evento.

O temperamento alegre de Remnick e sua capacidade instintiva de passar de líder a seguidor são provavelmente os segredos de seu sucesso. E, como tais, são qualidades que só podem ser refinadas, não aprendidas.

Como observou o escritor e humorista da revista Calvin Trillin quando Remnick foi anunciado como editor (com muitos aplausos na Redação): "Nunca me ocorreu que uma coisa tão sensata acontecesse".

Ele usa intervalos curtos da revista para "sair de casa" e renovar sua vocação de repórter. "Todos temos charges de quem somos, e a minha é que ainda faço reportagens", diz.

Durante nossa refeição (chegamos com o restaurante vazio e continuamos lá muito depois de os clientes do almoço terem saído), ele repete como é grato e feliz por estar onde está. Lembro a ele que, certa vez, disse em uma entrevista que editar a "New Yorker" não era o emprego dos seus sonhos. "É só porque nunca sonhei com isso", revida. "Mas o que poderia ser melhor?"


A íntegra deste texto saiu no "Financial Times".
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

2 comentários:

Nara Boechat disse...

oi pc,
te mandei um e-mail essa semana, vc recebeu?
precisava falar com você!

beijos,
Nara.

pc guimarães disse...

Estou fora do Rio. Estou numa lanhouse. Mande de novo, por favor. Ou me liga.